quarta-feira, 22 de julho de 2009

Morte e Vida Severina: Esperança, Destino e Pobreza

Todos os brasileiros têm um pouco de Severino, uns com morte “morrida”, outros com morte “matada”, porém todos com vida sofrida. Qual o destino que os espera quando a morte insiste em fazer companhia? Um destino Severino? Isso é pouco e a ânsia de mudar e vencer impulsiona cada Severino a ir à frente, mesmo tendo como guia um rio forte que ao longo do caminho se enfraquece e se entrega aos violentos sintomas da seca que tudo mata no Agreste nordestino, sintomas que levam a uma “morte severina”, que não poupa nem os símbolos das vitorias de cada dia. Como firmar os símbolos de fortaleza da vida e se opor a um destino pré-estabelecido? Em Morte e Vida Severina encontramos um retirante que não aceita sua sina e, contrariando sua própria natureza, segue sua vida.

Severino encontra-se com a morte da mesma forma que se encontra com uma emboscada, com a natureza e com os velórios-funerais de lavradores. E até na procura de trabalho há mortes embutidas, já que catar migalhas não é digno. E a retirada de Severino não é por cobiça, mas pela defesa da vida, o que envolve esperança. Movido por essa esperança ele se dirige a uma mulher em busca de trabalho e descobre que tudo o que sabia fazer não tinha nenhuma serventia. Ali só lucra a morte e os que a cercam: o médico, os coveiros, as carpideiras, as rezedeiras, o farmacêutico. Quando a morte se vulgariza impõe o destino e aniquila esperanças. Mesmo na Zona da Mata, Severino vê que as restrições e as dores seriam as mesmas e a cova será a única parte a que teria direito neste latifúndio. Dizem os coveiros: "Estamos seguindo o próprio enterro, é o cemitério que nos espera no Sertão". Este é o único destino final, que é certeza para todos os severinos. Ainda que a esperança imprima a busca por um trabalho (duro, mas que permita a subsistência), o que Severino vai encontrando é o desespero. Não há mais diferenças entre a vida e a morte, motivo pelo qual ele então se pergunta: por que não saltar do alto da ponte? Mas aí a vida (ou seria a morte?) responde com o habitual cinismo reservado aos miseráveis: nasce um filho... Um clima de euforia se estabelece com o nascimento, e ciganas vêm para ler o "futuro" do menino. Videntes estas que, movidas bem mais pela esperança que pelo visionarismo, prevêem que, quando o menino crescer irá trabalhar em uma fábrica, morar num lugar melhor... E aí Severino conclui que uma vida vale a pena ser defendida.

Analisando o contexto histórico em que a obra foi concebida, encontramos um Brasil onde a pose era atribuída a quem tinha o poder de fogo e assim como aconteceu com o “Severino Lavrador”, morto a bala por ter um hectare de terra de pedra e areia lavada, acontecia com os pequenos proprietários no Brasil onde anda não se discutia as questões da reforma agrária, mas já apresentava grandes atenuantes para a mesma. O executor de “Severino Lavrador” é ocultado pelos “irmãos das almas” e isso de deve ao fato do ato cometido, ser um ato comum onde a Caatinga é mais seca. A vida lhe foi tirada, apenas pelo fato do expansionismo acerbado, comum na década 50.

Assim como na constituição federal de 1988, o direito a terra também estava garantido na constituição de 1946 no art. 156 que diz: “A lei facilitará a fixação do homem no campo, estabelecendo planos de colonização e de aproveitamento das terras pública. Para esse fim, serão preferidos os nacionais e, dentre eles, os habitantes das zonas empobrecidas e os desempregados.” No inciso 1º do mesmo artigo, a constituição diz: “Os Estados assegurarão aos posseiros de terras devolutas, que nelas tenham morada habitual, preferência para aquisição até vinte e cinco hectares.”, e no inciso 3º “Todo aquele que, não sendo proprietário rural nem urbano, ocupar, por dez anos ininterruptos, sem oposição nem reconhecimento de domínio alheio, trecho de terra não superior a vinte e cinco hectares, tornando-o produtivo por seu trabalho e tendo nele sua morada, adquirir-lhe-á a propriedade, mediante sentença declaratória devidamente transcrita.” O direito a terra, era um direito garantido aos que tinha uma “vida severina”, porém há de se considerar que os severinos não tinham o poder de fogo dos grandes latifundiários e quando os mesmo ousavam conhecer tal poder, a história do “Severino Lavrador” tendia a repetir-se. O retrato do Brasil no qual está inserido o Severino de João Cabral é o Brasil dos coronéis, onde o direito se fazer valer por aqueles que detinham o poder de fogo.


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Morte e Vida Severina: Análise da História Numa Perspectiva Social

Umapaz ensina como elaborar projetos de Cooperação Internacional

A Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz) oferece curso de elaboração de projetos de cooperação internacional. Os participantes aprenderão sobre os atuais financiadores internacionais de projetos sociais no Brasil e participarão de oficinas de elaboração de projetos, partindo de casos reais.

Além disso, cada organização selecionará um edital ou programa de uma fundação internacional, organização multilateral ou governo estrangeiro e elaborará uma candidatura real no formato exigido.

Ou seja, ao final, as organizações participantes sairão não apenas com conhecimentos em elaboração de projetos, mas também com um projeto pronto para envio a uma entidade financiadora.

O curso acontece de 3 a 31 de agosto, sempre às segundas-feiras, das 18h30 às 22h30, e é aberto a integrantes ou colaboradores de organizações não-governamentais e movimentos sociais interessados em cooperação internacional.

Recomenda-se que cada organização participe com dois representantes. Além de freqüentar as oficinas às segundas-feiras, as duplas deverão ter disponibilidade para trabalhar cerca de 5 horas por semana fora do horário das aulas, na preparação de materiais a serem discutidos em classe.

As aulas serão ministradas por Maria Brant, mestre em Direitos Humanos pela London School of Economics and Political Science (LSE), e Tania de Falco, mestranda em Antropologia pela PUC-SP e com passagem pela Unesco.

Ambas são diretoras do Instituto de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, onde desenvolvem projetos de consultoria em cooperação internacional.

Todas as aulas acontecerão na Umapaz, na avenida IV Centenário, 1268, Portão 7-A, no Parque do Ibirapuera. Para se inscrever, é preciso enviar até dia 24 de julho uma ficha de inscrição para o e-mail inscricoesumapaz@prefeitura.sp.gov.br.

São 30 vagas e haverá seleção dos interessados. A ficha está disponível neste link. O resultado da seleção será disponibilizado no dia 28 de julho.

Festival de Inverno de Campos 2009

Em sua última semana, o 40º Festival de Inverno de Campos do Jordão leva uma série de atrações imperdíveis à cidade serrana. Na quarta-feira, 22 de julho, a Orquestra Sinfônica Municipal apresenta-se no Auditório Cláudio Santoro, sob o comando do maestro Rodrigo de Carvalho. Além de obras de Milhaud, Ravel e Debussy, o conjunto interpreta o Concerto para Violão e Orquestra de Heitor Villa-Lobos, com solos de Fabio Zanon. Já na quinta-feira, 23, a renomada pianista brasileira Cristina Ortiz realiza um recital no mesmo Auditório com obras de Debussy e Villa-Lobos.

O Quinteto Villa-Lobos faz recital na sexta-feira, dia 24, no Palácio da Boa Vista. No mesmo dia, às 21h, a Orquestra Acadêmica – formada por alunos do Festival – é a atração de concerto no Auditório Claudio Santoro, sob a regência do maestro Roberto Minczuk, e interpretação da Sinfonia nº 3, de Saint-Saëns, e La Valse, de Ravel. O pianista francês Michel Dalberto será o solista do Concerto para Piano e Orquestra, também de Ravel.

A Orquestra Acadêmica toca novamente na Praça Capivari no sábado, 25 de julho, às 12h30. No mesmo dia, Fabio Zanon faz um recital no Palácio da Boa Vista às 17h, e o grupo francês de música de época Le Poème Harmonique toca no Auditório Claudio Santoro, às 21h.

No domingo, 26/7, antes do espetáculo da Orquestra Acadêmica, às 17h, na Sala São Paulo, serão anunciados os vencedores dos prêmios: Eleazar de Carvalho, que concede bolsa de estudos no exterior para o vencedor; e do Concurso Camargo Guarnieri, que premia dois bolsistas – os melhores alunos das classes de composição e de regência.

No mesmo dia, será lançado um livro comemorativo sobre os 40 anos do Festival de Inverno de Campos do Jordão. A publicação é da Santa Marcelina Cultura, Organização Social responsável pelo evento a partir deste ano.

A programação completa está disponível em: www.festivalcamposdojordao.org.br

Programa Super Férias é a opção de lazer no mês de julho

No último domingo (19/07), atividades esportivas e apresentações circenses marcaram a abertura do Programa Super Férias 2009, no Clube Escola Jardim São Vicente. Durante todo o dia bandas, fanfarras, exibições de grupos de danças, taekwondo, judô, agitaram o público e para finalizar a bateria da Escola de Samba Leandro de Itaquera.

Durante o evento o secretário municipal de Esportes ressaltou a importância dos técnicos e professores dos equipamentos esportivos estarem atentos para as necessidades da população e usou como exemplo o professor Amauri. “O professor Amauri é um exemplo de líder local que é reconhecido pela população pelo trabalho que faz”, disse.

O secretário afirmou ainda que levará as atividades da Escola de Ciclismo para a terceira idade, para o Clube Jardim São Vicente.

Paralelamente à cerimônia de abertura, os outros 32 Clubes Escola participantes já estavam funcionando.

Até o dia 31 de julho as crianças de São Paulo terão mais essa opção de lazer no período de recesso escolar. O programa “Super Férias”, organizado pela Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, acontece em 33 Clubes Escola da cidade, oferecendo atividades como oficinas de circo, artes, gincanas, clínicas de reciclagem de brinquedos e muito mais.

Os organizadores do programa esperam um público de 150 crianças por dia em cada unidade, o que significa quase cinco mil atendimentos por dia. “Além das atividades nas unidades, estamos preparando passeios especiais para o Museu do Futebol, Escola de Ciclismo, Modelódromo e o Circo Espacial”, afirma Dinéia Cardoso, uma das coordenadoras do projeto.

A programação das atividades foi montada em parceria com a ONG Brinquedo Vivo. Um curso de capacitação de professores foi realizado no começo deste mês no Clube Escola Ibirapuera, a fim de preparar os profissionais para a demanda.


Confira abaixo os Clubes Escola participantes:

Clube Escola Mooca
Rua Taquari, 635

Clube Escola Ibirapuera
Rua Pedro de Toledo, 1651

Clube Escola Santo Amaro
Avenida Padre José Maria, 555

Clube Escola Thomaz Mazzoni – Vila Maria
Praça Jânio da Silva Quadros, 150

Clube Escola Pirituba
Rua Agenor Couto Magalhães, 32

Clube Escola Vila Manchester
Praça Haroldo Daltro, s/nº

Clube Escola Lapa
Rua Belmont, 957

Clube Escola Jardim São Paulo
Rua Viri, 425

Clube Escola Parque do Carmo
Avenida Afonso Sampaio Souza, 2001

Clube Escola Vila Guarani
Rua Lussanvira, 178

Clube Escola Barra Funda
Rua Anhanguera, 484

Clube Escola Tatuapé
Rua Monte Serrat, 230

Clube Escola Cambuci
Avenida Lins de Vasconcelos, 804

Clube Escola Curuçá
Rua Grapira, 537

Clube Escola Butantã
Rua Ernani da G. Cerqueira, 367

Clube Escola São Mateus – Gerdy Gomes
Rua Professora Lucila Cerqueira, 194

Clube Escola Tiquatira – Penha
Avenida Governador Carvalho Pinto, 2

Clube Escola Vila Santa Catarina
Rua Rodes, 112

Clube Escola Vila Carioca
Rua Campante, 100

Clube Escola Santana
Avenida Santos Dumont, 1318

Clube Escola Jardim Sabará
Rua Curia, 249

Clube Escola Jardim São Vicente
Rua Sargento Luis Batista, 83

Clube Escola São Mateus
Avenida Satélite, 756

Clube Escola Cabuçú
Rua Jerônimo Furtado, 751

Clube Escola Jaguaré
Rua General Mac Arthur, 1304

Clube Escola José de Anchieta
Rua José Balangio, 188

Clube Escola José Bonifácio
Rua Ana Perena, 110

Clube Escola Juscelino Kubitschek
Rua Inácio Monteiro, 55

Clube Escola Tiradentes
Avenida dos Metalúrgicos, 2255

Clube Escola Taipas
Avenida João Amado Coutinho, 240

Clube Escola Teotônio Vilela
Rua Carlos Clausetti, 19

Clube Escola da Aclimação – Jack Marin
Rua Muniz de Souza, 1119

Parque Esportivo dos Trabalhadores - PET
Rua Canuto de Abreu, s/nº

terça-feira, 21 de julho de 2009

Encontro de violeiros no Grajaú exalta a cultura do interior

Em meio a todo o corre-corre da agitada vida urbana, nossa cidade ainda abriga um pedaço da calmaria do interior. Ele pode ser desfrutado no Encontro de Violeiros, todo terceiro e quarto sábados de cada mês. Trata-se de um grupo que se reúne para tocar grandes clássicos da música caipira e mostrar composições próprias. O próximo encontro está marcado para este sábado, dia 25.

A festa é realizada na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, na rua Oscar Barreto Filho, 252, no Grajaú. A entrada é gratuita e o encontro é aberto para que o público e novos violeiros possam participar dele.

Os artistas são, em sua maioria, moradores da capital, mas eventualmente participam violeiros do interior paulista ou de outros locais. No repertório estão canções de ícones do estilo como Pena Branca & Xavantinho, Inezita Barroso, Alvarenga e Ranchinho, entre tantos outros que marcam o gênero caipira.

Esses encontros são realizados desde a década de 90. A novidade é que a criação do Calçadão Cultural do Grajaú proporciona um local fixo para as apresentações. A coordenação da Casa de Cultura Palhaço Carequinha - parte do Calçadão Cultural - convidou os violeiros para apresentações e, desde o início deste ano, a atração popular tem espaço garantido na programação cultural do pólo.

Cantando histórias da vida do caboclo do campo ou versando sobre a vida na cidade grande, os violeiros contribuem para que a preservação da tradição popular.


Serviço

Encontro de Violeiros
Quando: No terceiro e quarto sábados de cada mês
Onde: Casa de Cultura Palhaço Carequinha
Endereço: rua Oscar Barreto Filho, 252, Parque América, Grajaú
Entrada gratuita

Cineclube Pólis convida para sessão de diálogo com Ladj Ly

cineasta do coletivo Kourtrajmé da periferia de Paris


Exibição de filmes e debate que integra o programa INTERCÂMBIO DE CULTURAS URBANAS: ATELIÊS, DEBATES E ESPETÁCULOS, atividade do Ano da França no Brasil que promove reflexões sobre arte e relações entre centros e periferias de grandes cidades como Marselha, Paris, São Paulo, Osasco, Diadema e Recife.

Serão exibidos os filmes "365 jours a Clichy-Montfermeil, "Go Fast Connexion" e o videoclipe "Stress" da dupla Justice, todos dirigidos pelo cineasta Ladj Ly e seu coletivo Kourtrajmé da periferia parisiense. Ladj Ly é morador do bairro Clichy, principal foco dos conflitos entre jovens e policiais na periferia de Paris.

Após as exibições será realizado um debate com a presença do cineasta Ladj Ly.

Cineclube Pólis
Rua Araújo, 124, centro
Esquina com a Gal. Jardim, próximo à Estação de Metrô República
dia 21 de julho às 19h00

365 jours a Clichy-Montfermeil / 365 dias em Clichy-Montfermeil
Direção: Ladj Ly / Kourtrajmé - documentário - 25'48"
Jovens residentes da cidade de Bosquets, em Clichy-Montfermeil, filmam os tumultos que abalaram a França em Outubro de 2005. Ladj Ly filmou sua cidade, através do olhar das pessoas, durante e após o evento.

Go Fast Connexion
Direção: Ladj Ly / Kourtrajmé - documentário - 22'00"
Uma abordagem sobre o submundo do tráfico de droga como uma das forças mais pervasivas da vida moderna. O documentário é construído a partir de uma reporgem do jornalista Charles Villeneuve sobre o bairro Clichy-Montfarmeil.

"Stress" - Justice
Direção: Ladj Ly / Kourtrajmé - videoclipe - 6'45''
Polêmico videoclipe da dupla de hip-hop francesa

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Morte e Vida Severina: Análise da História Numa Perspectiva Social

Morte e Vida Severina é um texto de histórias simples e significados profundos. O protagonista é um retirante, um nordestino de vinte anos que foge da seca e da vida sofrida e miserável do Sertão e que, caminhando às margens do rio Capibaribe em direção a cidade do Recife, tem a esperança de encontrar vida melhor.

Na primeira parte do poema o retirante se apresenta. Trata-se de “Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba”. Não é por acaso que o escritor escolheu esse nome, já que é muito comum no Sertão nordestino. Milhares de nordestinos partilham o protagonista seu nome, assim como sua miséria e seu sofrimento. Portanto, o que parece ser uma tentativa de particularizar quem é o protagonista na verdade faz o contrário. Ao se apresentar, Severino encarna todos os retirantes do Sertão, “iguais em tudo na vida” e na perspectiva constante do mesmo tipo de “morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. E viver a “vida severina”, tendo como perspectiva não mais que a morte, é a “sina” que une todos os nordestinos que, vivendo no árido Sertão, trabalham duramente para “abrandar estas pedras suando-se muito em cima” e “tentar despertar terra sempre mais extinta”. Sem apoio suficiente do Estado, submetidos ao domínio, à violência e à exploração dos coronéis do Sertão, sem meios de produzir para sua subsistência, estes severinos vêem-se obrigados a emigrar de suas terras ou moradias para as cidades.

Na segunda parte o retirante encontra dois homens que carregam um defunto. Vítima de uma das formas de “morte severina” citadas na primeira parte, este agricultor, “Severino Lavrador”, morreu de emboscada por causa de uma disputa de terras. O diálogo de Severino com os dois “irmãos das almas” revela o motivo: aquele lavrador morreu por causa da cobiça de outro que desejava se apoderar de seus “hectares de terra” “que não dá nem planta brava” mas onde ele “plantava palha”. Os interlocutores parecem não mais se indignar com a injustiça que ocorre, pois é uma situação contra a qual os severinos do Nordeste não tem como lutar. Afinal, “o que é que acontecerá contra a espingarda” e o assassino? Simplesmente terá “mais campo”. Interessante verificar que ao se falar da bala que mata em invés da identidade do assassino (que parece ser conhecida pelos que carregam o corpo) vê-se no acontecimento algo comum para a vida naquela região. Com efeito as personagens não demonstram a indignação que as poderia levar a lutar contra tal injustiça.

A terceira parte nos monstra um aspecto interessante da cultura no Sertão nordestino: a religiosidade que permeia sua imaginação. O caminho de Severino é marginal ao rio Capibaribe que, por causa da seca, está fino e, em alguns pontos, seco. A sucessão de pequenos arruados cortados pelo fino rio, que vez ou outra encontra uma vila maior, parece ao Severino as contas de um rosário, objeto popular de devoção católica. E o andar do retirante através de uma paisagem monótona e estafante, só suportável pela esperança de alcançar uma vida melhor ao final, lhe é percebido como a reza de uma ladainha ou de um “rosário até o mar onde termina”. A religiosidade que notamos no texto não é uma religiosidade particular do retirante, algo que este ofereça espontaneamente para Deus como forma de devoção, mas uma carga que deve suportar, uma penitência que deve realizar para obter sua redenção. A prática da reza do rosário, tal como a da ladainha, é uma devoção aprendida e realizada socialmente e só pode ser entendida no contexto cultural do devoto. Quando Severino reza seu rosário do retirante o faz com todos os outros retirantes que fogem da “morte severina” em busca de uma vida melhor. Na vida do nordestino severino as peregrinações, as rezas de rosário e as missas se misturam com a crença em benzedeiras, em festas religiosas e em advinhas e lhe dão toda uma forma de ver e entender seu mundo.

Na quarta parte, Severino retirante mais uma vez se depara com a morte. Num local onde esta é sempre tão presente também a religiosidade permeia as tradições populares e trás conformação para os que ainda vivem e significado para os sofrimentos. Mas, ao tempo que a maioria das personagens se conforma, alguém de fora da casa ironiza as excelências (rezas em forma de canto pelas quais o defunto é oferecido à vida após a morte). Como poderia o finado levar para o além aquilo que talvez nunca possuiu no mundo da “vida severina”? Mesmo o caixão que carrega o finado não lhe pertence, não poderia ter comprado em vida, e certamente a “cera, capuz e cordão”, além da imagem da “Virgem da Conceição”, são coisas que lhe custariam grande dificuldade para adquirir. Novamente vemos aqui temos a referência a uma peregrinação. As excelências lembram da cera e cordão para a vela, da imagem da Virgem para a procissão e assim o finado poderá se juntar a tantos outros defuntos que sofrem a “morte severina”, retirantes desta vida para o além. Mas as únicas coisas que esses retirantes realmente possuem e poderiam levar a qualquer lugar, mesmo para o mundo do além, são as “coisas de não: fome, sede, privação”.

O calor, a seca e a falta de comida e de abrigo submete o retirante a um sofrimento intenso durante sua jornada. Entretanto, o nordestino do Agreste e da Caatinga conta com pouca ou nenhuma assistência do Estado e de organizações em geral para sobreviver, o que o leva a decidir enfrentar esse caminho e emigrar. Mas preferiria permanecer em seu local de nascimento e subsistir de sua lavoura ou, tendo saído de sua terra, “achar um trabalho de que viva”. Na quinta parte do poema Severino, cansado, pensa que, se o rio em alguns momentos pára, poderia também ele parar seu caminho e tentar permanecer. Entretanto, o que faz “o Capibaribe interromper sua linha” é a seca. E a consequência da seca é a escassez e a morte, elementos sempre presentes por todo o caminho de Severino. É a morte “ativa”, às vezes até “festiva” (quando cantada na religiosidade popular). Onde quer que se encontre água no Sertão nunca será suficiente para a população que a divide com a parte que é “consumida pelas roças, pelos bichos, pelo sol com suas línguas”.

Numa terra em que o clima não favorece o pequeno e médio lavrador a agricultura não é capaz de prosperar sem ajuda do poder público e dos bancos. Dada a omissão destes para a pequena e média propriedade, o resultado nas cidades do Sertão é a falta de emprego e a escassez. A “vida severina” é uma vida de privações e de miséria, tanto no campo como nas cidades. Com a exceção dos grandes proprietários de terras, que têm acesso a recursos financeiros e materiais suficientes para fazer a terra árida a produzir, a grande massa da população está submetida a essa situação. Na sexta parte do poema o retirante descobre que não encontrará trabalho naquela ou qualquer outra cidade do Sertão. Ninguém dará emprego para um retirante que não sabe mais que lavrar “terra má” e plantar “o algodão, a mamona, a pita, o milho” ou qualquer outro produto do modo que aprendeu a fazer, ou seja, no estilo do “roçado”. Somente os grandes proprietários de terra (dentre estes também aquele tipo de proprietário que buscou com sua “ave-bala” obter “mais campo” para “fazer voar as filhas-bala” e ampliar seu latifúndio) são capazes de mecanizar suas plantações e fazer uso de técnicas modernas de irrigação e tratamento do solo. Sem apoio, o médio produtor não é capaz de concorrer com o grande, pois este conta com maior produtividade, menores custos e apoio dos bancos (para não falar das condições excepcionais que não raro os grandes produtores conseguem obter dos bancos públicos).

A consequência disso é que os severinos do Sertão, se de um lado se vêem obrigados a abandonar suas terras em busca de sobrevivência na Zona da Mata ou em cidades grandes do litoral, deixando suas terras para os grandes proprietários, por outro lado não conseguem trabalho pois não têm nenhuma qualificação ou educação para os tipos de emprego que são oferecidos nos locais para onde migram. Em suas terras de origem “ninguém aprendeu outro ofício, ou aprenderá”. A “vida severina” os acompanham para onde quer que se retirem. Mas esta parte sexta do poema também apresenta um tipo de personagem que não é grande proprietário de terras, não se pode dizer que seja rico, mas consegue sobreviver explorando uma realidade muito presente no Sertão nordestino. A mulher com que o retirante-protagonista dialoga explica que como lá “a morte é tanta” ela vive “de a morte ajudar”. As profissões que se relacionam com a miséria, a doença e a morte são fonte de renda num local onde “só é possível trabalhar nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar”. Mas mesmo esses ofícios são vedados aos severinos retirantes. Para serem médicos ou farmacêuticos precisariam de acesso à educação e ensino superior. E para serem benzedeiras, curandeiros ou rezadeiras, verdadeiros oficiantes da religiosidade popular, reconhecidos a ponto de vir gente “de um raio de muitas léguas” lhes chamar, precisariam de entendimento em artes mágicas e rezas ensinado a poucos. Não só para os latifundiários, mas também a esse tipo de classe média, as mortes “dão lucro imediato; nem é preciso esperar pela colheita: recebe-se na hora mesma de semear” o caixão no solo.

Um lampejo de esperança, um breve sonho de alívio toma o retirante na parte sete do poema quando chega à Zona da Mata. Depois de longa jornada por terras áridas o protagonista encontra um solo mais fértil, um clima mais úmido, onde os rios perenes têm “água vitalícia” e a terra, ao contrário da encontrada na Caatinga, é “fácil amansar” por ser “doce” e “tão feminina”. Para o retirante acostumado com a Caatinga de solo pedregoso e vegetação ressequida a Zona da Mata lhe parece a chance de uma vida melhor. É lá que então ele deseja plantar “sua sina”, seu destino. Mas não há lugar para ele na Zona da Mata. Nem para nenhum outro severino retirante. A Zona da Mata está tomada pelas imensas plantações onde não se avista “ninguém, só folhas de cana fina” e algumas usinas. O protagonista está pensando em se estabelecer nessa terra que parece o paraíso, o fim de seu “rosário”, mas está iludido. Os grandes usineiros de álcool e cana dominam toda a região que, ao invés de servir para o assentamento de pequenos produtores rurais e suas famílias, estão nas mãos de poucos proprietários. E o trabalho oferecido é pouco e perigoso por expor o trabalhador a riscos de mutilação durante as colheitas.

Na parte oitava do auto, o diálogo entre pessoas em um enterro desfaz a ilusão. O texto que se segue, imortalizado na voz de Chico Buarque de Holanda (na música “Funeral de um lavrador” de 1969), ironiza o trabalhador defunto que sonhou com justiça no campo com uma divisão de terras que resolvesse a miséria de sua “vida severina”. A terra que cobre a cova será, enfim, sua “roça”, onde o defunto poderá trabalhar para si e não mais “a meias, como antes em terra alheia”, e nem como escravo no eito (latifúndio que emprega trabalho escravo ou semi-escravo). Depois de anos de trabalho duro e miseravelmente remunerado o defunto tem seu caixão como “o brim do Nordeste”, que o “veste, como nunca em vida”. E essa terra de latifúndio que o cobre é a mesma que já “bebeu” seu “suor vendido”, sua juventude, sua felicidade e seu tempo de convivência conjugal, familiar e social.

Esta terra rica da Zona da Mata está tomada pelos grandes proprietários. E tal é o domínio que eles exercem sobre essa região que nem trabalhadores, nem os próprio rios, lhes são capazes de resistir. Na parte nona do poema Severino entende “por que em paragens tão ricas o rio não corta em poços como ele faz na Caatinga”. Ele “vive a fugir dos remansos” porque é desviado pelos latifundiários para a irrigação de suas plantações. E nem mesmo nessa terra fértil os trabalhadores recebem uma parte maior por seu “suor vendido”, já que estas são terras de “grande cobiça”. O protagonista conclui que, se deseja defender sua vida da “tal velhice que chega antes de se inteirar trinta”, neste local não deve se estabelecer. “O melhor é apressar o fim desta ladainha, fim do rosário de nomes” de cidades e paragens “que a linha do rio enfia”. Sua esperança de vida melhor o impele em direção ao Recife onde acredita vai encontrar a solução para sua vida miserável, assim como a religiosidade de seu povo acredita que a reza comunitária do rosário, se não melhora sua vida, ao menos impede que se torne insuportável.

Na parte dez, o retirante chega a Recife. Cansado, procura descansar e ouve a conversa entre dois coveiros. Falam sobre o trabalho no cemitério. Para os ricos o cemitério reserva “as belas avenidas”, “o bairro da gente fina”, ou seja, “o bairro dos usineiros, dos políticos, dos banqueiros” e também “dos industriais, dos membros das associações patronais”. Claro que se o defunto, ou melhor, o que herda o dinheiro que o defunto não conseguiu levar para o além, não puder pagar para estar enterrado em tal local, pode escolher o “bairro dos funcionários, inclusive extranumerários, contratados e mensalistas”, tais como “os jornalistas, os escritores, os artistas” e também “os bancários”, os “comerciários, os lojistas, os boticários” e aqueles que, apesar de terem profissão liberal, “não se liberaram jamais” da submissão ao poder econômico que a elite exerce sobre estes de classe média. Os “bairros ricos” do cemitério são melhor cuidados e apresentam menos trabalho aos coveiros. As classes alta e média conseguem melhor assistência de saúde, melhor qualidade de vida, melhor acesso a educação de boa qualidade e tudo isso lhes permite mais que uma vida melhor: lhes permite estarem enterrados em locais mais bem cuidados e dignos. Mas o desumano não está no tratamento que é destinado a quem tem como pagar, mas no tratamento que é negado aos que, apesar de uma vida de trabalho duro, não têm como pagar por uma cova digna.

Neste momento severino nota que, assim como para todos os severinos, o quinhão do cemitério que lhe caberá será aquele de várzea onde “o rio afoga na preamar e sufoca na baixa-mar”. Severino é “gente sem instituto, gente de braços devolutos” e de “enterros gratuitos”. Ele é “gente do Sertão que desce para o litoral” e “fica vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha”. Para o coveiro, as pessoas que, como Severino, estão destinadas a uma vida de miséria numa favela dos arredores do Recife deveriam ser sacudidos “de qualquer ponte dentro do rio e da morte”. Este coveiro, trabalhador assalariado que não tem consciência de sua própria situação de alienação e de exploração, que acha natural uns terem mais que outros e uns serem tratados com mais dignidade que outros, que não entende a razão que leva pessoas como Severino a sair do Sertão para o Recife, que acredita que alguém possa morar em uma favela cheia de lodo por opção pessoal ou por preguiça, é um legítimo representante da cultura dominante que a burguesia impõe às classes dominadas como se fosse verdadeira e universal. Agora Severino percebe, nas palavras do coveiro, que “vindo por essas caatingas, vargens, ai esta o seu erro: vem é seguindo seu próprio enterro”.

Severino fica desiludido. Na décima-primeira parte do poema, Severino percebe que não tem como fugir de sua “vida severina” e que o seu destino é forte demais para que possa lutar contra. Não tem como evitar a morte e, quando essa chegar, evitar sua indigência. É fato que ele sabia que depois do “rosário de cidades e de vilas” que caminhou “não seria diferente a vida de cada dia”, mas teve a esperança de “que ao menos aumentaria na quartilha, a água pouca, dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa”, ou o seu “aluguel com a vida”. É o desejo da grande maioria dos brasileiros: uma vida que, se não rica, ao menos seja digna, com comida e saúde suficiente. Mas, se isso é muito menos do que qualquer ser humano merece, nem isso lhe é garantido por uma sociedade que privilegia quem já tem muito e marginaliza quem já está a sua margem e tem nada. Agora Severino acredita que seu enterro ele seguia, que não lhe resta mais para onde se retirar, e decide apressar a morte: pretende de jogar da ponte de um dos cais do Capibaribe.

Na décima-segunda parte, Severino trava diálogo com José, o carpinteiro. Esse diálogo muda os ânimos de Severino, mas demonstra porque Morte e Vida Severina é um auto de Natal. A relação entre este carpinteiro (“Seu José, mestre carpina”, vindo de “Nazaré da Mata”) e São José, pai de Jesus, é clara. Nesta parte do poema começa algo que poderíamos comparar com a encenação de um presépio. Se de um lado o tema de Natal está presente porque assim foi encomendado ao autor, por outro ele carrega uma significação religiosa própria da cultura no Sertão nordestino. No diálogo, Mestre carpina diz para Severino que embora a miséria seja “mar largo”, “para cruzá-la vale bem qualquer esforço”. José diz que o “mar” da miséria “precisa ser combatido, sempre, de qualquer maneira, porque senão ele alaga e devasta a terra inteira”. Mas se cada severino tem como sina lutar constantemente contra seu destino de pobreza, se contentando com o simples fato da miséria não aumentar, não seria tal atitude um conformismo disfarçado de luta? Nesse sentido Severino questiona: “há muito no lamaçal apodrece a sua vida? e a vida que tem vivido foi sempre comprada à vista?” e tem como resposta “o que compro a retalho é, de qualquer forma, vida”. Com efeito a religiosidade católica popular no Brasil costuma ensinar essa atitude de conformismo de José, onde nos submetemos a esta “vida severina” pelo simples motivo de ser vida.

O diálogo de José e Severino é interrompido na parte treze por uma mulher que anuncia o nascimento de uma criança, o filho de José. A ironia: enquanto Severino pensa em saltar para a morte, o filho de José “saltou para dentro da vida”.

Parte quatorze. Os vizinhos, amigos e duas ciganas visitam o mocambo para ver o menino. Ao modo dos cânticos religiosos de Natal, os presentes celebram o nascimento do menino, que consideram em algo especial, já que coisas boas aconteceram na favela. Porque a maré permaneceu alta “a lama ficou coberta e o mau-cheiro não voou”. O céu ficou estrelado e os mocambos se tornaram lugares mais aconchegantes, modelares, tal como gostam de descrever alguns acadêmicos (uma crítica do autor a um sociólogo de sua época do qual discordava). Mas se tudo isso se deve ao nascimento dessa criança, ou se ao menos essas são as impressões de quem se alegra com o fato, o que esperar de seu futuro, de seu destino? Se compararmos com a vida de Jesus (e a inspiração do texto de João Cabral de Melo Neto autoriza a fazê-lo), perceberemos que Jesus nasce pobre, vive pobre e, ao pregar uma doutrina que ameaça quem detém o poder em seu país, morre de forma cruel e infame. Este é o destino de todos os severinos?

Na parte quinze, em outro paralelo com o presépio, chegam visitantes trazendo presentes para o recém-nascido. Nenhum deles tem mais a oferecer que aquilo que faz parte de seu próprio dia a dia e de sua subsistência. São caranguejos dos mangues, o leite materno de uma vizinha, o jornal que serve de cobertor, frutas, ostras do cais de Aurora e outros. Numa situação de miséria como aquela os moradores da comunidade percebem a necessidade da colaboração.

Duas mulheres presentes pedem a atenção de todos na parte dezesseis do poema. Querem desvelar para os pais e seus amigos o destino que aguarda pelo menino que viera à luz. Se na parte quatorze se levanta a dúvida de qual seria o destino deste menino, agora as que se apresentam como “ciganas do Egito” lho vão revelar. A primeira cigana vaticina: engatinhará “por aí, com aratus” e “aprenderá a caminhar na lama”; Aprenderá a caçar “catando pelo chão tudo o que cheira a comida” e revirando o lixo; Quando adulto vestirá roupas sempre escuras de lama, pois será um pescador de siris e camarão. Mas o vaticínio da segunda cigana acrescenta mais um elemento ao destino desta criança severina. Poderá também ter uma vida com mais “planura” sendo um “homem de ofício”. Para se libertar dos mangues poderá vir a trabalhar numa fábrica, onde suas vestes permanecerão negas, não de lama, mas de “graxa de sua máquina”. Em troca de um salário baixo mas relativamente estável se submeterá à exploração do industrial e suas máquinas. Adivinhação ou destino já anunciado pela situação social em que o menino nasce?

A penúltima parte do poema se oferece à força e à luta que os severinos travam contra sua sina e a morte. Aquela criança prematura e guenza teima em vencer a morte que tão cedo lhe ameaça. Desnutrido, seu coração, “a máquina de homem”, continua a bater “como um sim numa sala negativa”. Sua vida talvez repita o destino de cada severino, essa miséria que nunca acaba, como se fosse “a última onda que o fim do mar sempre adia”. Entretanto, se o nascimento de uma criança pode ser motivo de preocupação para pais que vivem em miséria, certamente é também motivo de renovadas esperanças. Um filho é a chance de uma nova história, de um novo destino. Se o destino de um morador de mocambo repetiu a sina de cada severino retirante que antes tentou uma nova vida no Recife, o desta criança, nascida na cidade, poderá ser um pouco melhor pelo acesso que poderá ter à educação que, se não é suficiente, ao menos será melhor que a que os pais obtiveram no Sertão. O nascimento da criança é “belo porque com o novo todo o velho contagia”, “porque corrompe com sangue novo a anemia” e “infecciona a miséria com vida nova e sadia”. Como no Natal de Jesus, presente no imaginário da tradição popular, a criança que nasce na pobreza pode carregar consigo a força de começar um caminho novo e mudar o destino que marcou seus pais.

O poema termina com o carpina indo ao encontro de Severino, que não tomou parte de nada do que ocorreu no mocambo. Vem para lhe contar porque agora pensa que o protagonista não deveria “saltar fora da ponte e da vida”: para ele, “é difícil defender” a vida, “ainda mais quando ela é esta que vê, severina”, mas “não há melhor resposta que o espetáculo da vida”. Se na parte doze fica a dúvida sobre a atitude de José carpina, se é uma incitação a lutar contra a miséria ou se é um conformismo diante do aparentemente inevitável destino dos moradores de mocambo no Recife, agora fica claro o que move o otimismo do carpinteiro: é a vontade de viver, a mesma que moveu o retirante do Sertão para o litoral. E só essa vontade de viver é capaz de mover cada severino a desejar e lutar por uma vida melhor para si e para seus semelhantes. Cabe a cada brasileiro a tarefa de buscar e realizar soluções que permitam que o nome “severino”, usado de empréstimo pelo grande João Cabral de Melo Neto, seja devolvido ao nordestino como nome próprio e nunca mais precise ser usado como sinônimo de miséria.

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